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Domingo, 6 de Julho de 2008

1º Classificado

1º Classificado

Texto º 2
Titulo: Também tenho dias…
Marco António Baltazar dos Santos
68 Pontos
 
O despertador soou como uma sirene. Estava de facto exausto. A noite anterior tinha sido esgotante.
O meu avô tinha sido enterrado no dia anterior. E a noite parecia não chegar ao fim. Parecia que estava a ter um pesadelo, mas era necessário reagir, pois tinha um dia longo pela frente. Era o dia de avaliação de Ginástica, de Geografia e História.
Isto não me podia estar a acontecer. Não era justo. Não era justo ele ter sofrido tanto com aquele cancro nos pulmões, muito menos justo era o facto de eu ter que ir à escola, ainda por cima três testes… Era demais! Demasiado esforço me foi pedido e eu não sabia se ia ser capaz. Simplesmente não me conseguia abstrair da imagem do meu avô, dos dias felizes que vivi com ele. Até foi ele que me ensinou a fazer moinhos de vento para EVT, enfim tudo me vinha à memória. Apetecia-me ficar a dormir e a sonhar com ele. Mas não podia. Olhei-me ao espelho e fui para o duche. Já ia um pouco atrasado, mas cheguei antes do segundo toque. Começava bem o dia, à primeira hora ia ter teste de Geografia. Boa! Estava feito, não tinha tido cabeça para decorar a matéria, era muita coisa para a minha cabecinha de menino. Sim, de menino, era assim que me sentia mesmo sabendo que tinha 14 anos e tinha era mais que ser um rapaz. Mas não, não me apetecia deixar a imagem daquele menino que tinha tido um avô e que sentia orgulho das vezes que ele o vinha buscar às 18.30. Na altura não gostava assim tanto, pois significava que era pequenino, mas agora…Agora dava tudo, até mesmo todos os meus jogos para que esse tempo voltasse. Agora entendia o refrão da canção que ele tanto gostava, ( “ Ó tempo volta pra traz”) nem sei quem cantava isto, mas foram imensas as vezes que ouvi.
A professora entregou os testes sem dar um sorriso, isso fez-me pensar que ela naturalmente assim como eu podia ter tido uma noite semelhante, com os problemas dela. Agora entendia melhor o semblante fechado de certas pessoas, de facto toda a gente tem problemas, era algo que hoje se tinha tornado mais claro para mim.
Ouvi o toque de saída, tinha que entregar o teste e não tinha corrido nada bem. Não me lembrava de nada. Tive uma “branca”. Passei o tempo todo a vaguear e absorvido em recordações. A nota ia baixar com certeza, isso deixou-me mais triste ainda. Porquê? O tempo devia parar e só recomeçar quando eu me sentia-se normal e recuperado desta tristeza.
No intervalo, o Júlio percebeu a minha cara e tentou-me animar com uma anedota. Era porreiro o Júlio. Sempre disposto a ajudar. E eu para não o deixar ficar mal lá me ri mas, sem qualquer vontade. Fomos ao bar comer um folhado de salsicha e um queque. Apetite não me faltava, graças a Deus. Ao menos isso.
Mas como um mal nunca vem só, o teste de História estava a dar comigo em doido. A professora era espectacular e astuta pois percebeu que eu não estava bem. Quando tocou, entreguei o teste com a lágrima no olho, fazendo um esforço enorme para não a deixar cair. Que vergonha que era se a lágrima rolasse pelo rosto. Corri depressa para a casa de banho. Ali já podia ser eu! Passei ali o intervalo. Como ele me fazia falta!
A aula de Português pareceu-me uma eternidade. Faltava-me o ar, as pernas tremiam. Estava nervoso. Quando deu o toque apressei-me a guardar o livro e o dossiê. Nem reparei que o estojo tinha caído. O barulho que uma turma inteira faz na hora de saída é realmente estrondoso.
Estava no pátio e vi a D.ª Ester a vir direito a mim com o meu estojo na mão. Por sorte eu tinha o meu nome escrito e ela conhecia-me bem. Há já três anos que eu andava naquela escola e já éramos toda uma família. Agradeci-lhe e dei-lhe um beijinho. Que boazinha era a D.ª Ester. Ela tinha sensivelmente a idade do meu avô. Tinha que ser, lá estava eu. Tudo o que via me fazia lembrar dele. O meu pensamento foi interrompido pela queda aparatosa da Rute. Bem! Foi uma senhora queda. Tivemos que levantá-la do chão. O curioso foi que ninguém se riu. Assim é que é. Não se goza com estas coisas. Podia se ter magoado a sério. Aquelas escadas já mereciam um arranjo. Ouvimos o toque e entre tês lá levámos a Rute ao colo. Íamos ter aula de ginástica e ainda por cima era avaliação. A Rute já tinha o dia feito com a queda que deu e eu parecia que me tinha passado um comboio por cima. Estava super cansado. Não estava preparado para dar o meu melhor nos exercícios e isso veio a demonstrar-se depois. A minha prestação nos exercícios foi um fracasso. O Professor abanou a cabeça. Claro que ninguém sabia do meu dilema, da minha tristeza. Eu optei por não contar a ninguém, só o Júlio sabia. É um grande amigo, um companheiro.
Finalmente o dia chegou ao fim. Corri para casa. A minha mãe esperava-me na janela com um sorriso. Ela bem tentava disfarçar. Era indisfarçável aquele olhar de tristeza, de vazio. Abracei-a, sentindo que por ela eu tinha que ser forte. Ela precisava de mim. Por momentos senti que o tempo tinha parado e houve um silêncio profundo. Ela olhou-me e disse-me: - “ Anda meu filho, a comida está na mesa.”
Senti-me o miúdo mais amado do mundo. Ela era o meu pilar. Nesse momento pedi a Deus para nunca me levar a minha mãe, eu não ia aguentar.
 
publicado por Paulo Condesso às 21:16
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